De coração para coração #1
"Querido J.,
Eis a forma que descobri para ir sobrevivendo longe de ti. Tenho a certeza de que me irias perguntar, de sobrolho franzido, «Cartas?». Tens toda a razão. Quem é que ainda escreve cartas, em pleno século vinte e um? Acredito que não seja a única. Uma boa distração para as angústias diárias, uma terapia ainda melhor. Sei que irias lê-las, mais tarde ou mais cedo. Devagar, levando o teu tempo. Iria irritar-te descobrir que afinal a mulher que amas não é assim tão forte. Que são negros os seus pensamentos, e os seus desejos, quando a dor aperta e o desespero a sufoca. Mas ninguém é feito de ferro, meu amor.
Todos os dias me sinto grata por ter alguém que me prende à vida. Alguém que faz valer a pena todo este sofrimento. Alguém que me traz esperança, e me completa, me faz sentir feliz, viva, despreocupada, quando está do meu lado, por muito pouco tempo que os nossos momentos durem.
Alguém que me salva, todos os dias, sem sequer se aperceber. É o que tens feito, já lá vão quase oito anos. A melhor parte da minha história. Tudo o resto desapareceu, como que por magia. Quem me dera que tivesses surtido o mesmo efeito nas cicatrizes que o passado deixou. Talvez hoje estes demónios não me atormentassem. Talvez fosse mais fácil enfrentar os presentes envenenados da vida, os buracos do caminho que me engolem sem aviso.
Sei que te magoa quando digo que já não aguento mais, que gostava de desaparecer por breves instantes e deixar de sentir tudo. A coisa que mais me apavora é precisamente a ideia de te magoar. E de algum dia te perder.
Por isso aqui vou sobrevivendo. A cada murro que o destino me desfere, a cada rasteira que a vida me prega, caindo e reerguendo-me, com a esperança de que um dia, muito breve, finalmente os nossos caminhos se irão unir e tudo vai mudar.
Prometo que vou continuar a resistir. Até ao fim.
Margarida"

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